Sabor de lugares, saber das pessoas.

Sei que está dificil pra todo mundo viver desse jeito sem vida que estamos vivendo. Às vezes penso em sair dessa e voltar a andar por aí (o que, se for invertido, provavelmente seria uma péssima idéia: voltar a andar por aí e sair dessa…)

Como não pretendo que este texto seja uma leitura póstuma, vou ainda ficar na minha. Uma situação terrível para quem vive de viagens como eu. Como todo mundo, sinto falta do convívio com as pessoas e das expectativas que cada pessoa representa. Com que prazer eu descobria afinidades e conseguia assim viajar no tempo com elas. Frequentemente para o passado, mas ocasionalmente para o futuro.

Para o passado eu ia com gente que nasceu e se fez aqui na região do ABC paulista, terra dos licores e doces de cambucí.

Para o futuro eu ia com gente de outros lugares e outras épocas. Como não compartilhava nada do passado, apenas o futuro poderia oferecer um espaço comum. Daí eu achar sempre muito proveitoso conhecer gente de outros lugares e com elas aprender coisas novas. Falas, gostos, preferências, tradições. Um jeito de ser e viver que eu buscava absorver e incorporar. Era eu sendo menos e menos eu mesmo e sendo mais e mais um sem terra (ou com todas as terras):

  • Ara tchê! Mas que trem bão sô.Vixe, crêmdeuspai. Bricava eu.
  • De onde tu é? Gaúcho? Mineiro? Da Bahia?
  • – Sou desse mundo véi sem portera, arremematava. Que paulista é antes de tudo um bandeirante e assim nosso território é o Brasil.

Paulista é besta, disso eu sei. Sou gozado por todos os garçons Brasil afora porque peço chopp com colarinho.

E porque acho um sacrilégio comer pizza com maionese, catchup e mostarda. E está claro pra todo mundo que assaí com banana e granola (e tudo o que vier com leite condensado, menos presidentes) é invenção de paulista.

E sendo viagem um dos meus temas preferidos, do Nordeste sinto a falta das praias e da culinária, e das pessoas nem preciso falar, que dessas vem tudo o mais. Não comi a buxada de cabrito (que me perdoem os paraibanos) mas comi no Bodódromo de Petrolina, (onde o bode leva a fama e o carneiro é quem vira assado).

Em Petrolina renda-se aos surpreendentes vinhos da região – moscatel – são uma excelente opção. E não deixe de esperimentar o Miolo Brandy Imperial 15 anos. Um destilado produzido em alambiques originais da região de Cognac,

instalados ali mesmo em Sobradinho, e envelhecido 15 anos no sistema espanhol de solera: surpreendente e raro.

E saindo de Petrolina, não tem rodoviária no Nordeste que não tenha a vendedora de mungunzá. Pensa numa sustança!

Mais para o litoral bahiano (sugestão: fim de tarde no Rio Vermelho) o A-ka-ra Jê

o fast food tropical que harmoniza com a branquinha de Salinhas. E Licor de Jenipapo pra finalizar,

que nem só de Cointreau vive uma paixão.


Pituzada em Piranhas é um prato raro e agradeça se acaso estiver por lá enquando liberam a captura do Pitu no São Francisco, agora mais frequente depois da moratória de 10 anos para repovoamento do rio. Ali, ore por todos que vivem do Rio dos Currais. Que ele nunca morra.
Bom acompanhar com uma puro malte mas antes inaugure com uma dose da genuína Pitu pernambucana. Nada mais próprio.

A muqueca capixaba é respeitada. Mas eu prefiro aquela, a dos deuses afrodescendentes da Bahia. O dendê e o leite de côco fazem maravilhas nessas panelas de barro. Ou será que é mesmo o talento da baiana?

Do Sudeste os recortes. De serra com subidas mantiqueiras e um sonho – que nem sei se presta – de ver tudo branquinho de neve, pra ter uma paisagem andina (deixo os Alpes pra outro momento). Já a paisagem toscana, essa está aninhada nesse Sul de Minas. Desses vales saem queijos, azeite de oliva

e orações pra um santo milagreiro em cada vila. E brotam cantigas de rezadeiras que o Bituca cantou. E a vista fica turva de alturas e os grotões se afundam nesse império de larguesas. Adivinho o curso dos rios e os perco na enchente de luz que espia de cima essas Minas Gerais.

Em Minas chegue na hora do almoço. Se há uma unanimidade nacional, essa é a comida mineira. Que também tem vinhos e cervejas (ops!!!). Ali beba o Arábica. O que lhe falta em blend sobra em sabor. E de Alagoa e Cruzilia, queijos premiados tirados de uma paisagem que produz sons inesperados na nossa garganta.

E mais perto de mim, Brotas belezas e sonho de rio limpo Jacaré-Pepira. Bóias sobre vertiginosas cachoeiras, farras de rio. E a Cuesta quebra o mar de cana e eucalipto em ondas, porque esses mares continuam lá em cima como cá em baixo. Pra tirar o fôlego os verticais paredões, coisa de fotografia (ou de cinema).

Dali trouxe muito bons queijos e até um muito bom cabernet. E o filé a parmegiana é um dos orgulhos regionais, porque escolheram assim ué!

O Sul é mais embaixo. De Estrada da Graciosa a trem que levita na Serra descendo a Morretes beira mar.

Outros morretes, Vila Velha, milenar. De Morretes, aquela do mar, vai a dica: cachaça de banana pra amaciar a sonolência. Só ali tem e claro, o Barreado é a pedida por ali.

E o show tem que continuar, em catarinas praias atracar. Um lugar que tem o uso no nome: Balneário. Impressionava. Agora diga boa viagem. Tomou do Recife o primeiro lugar em praias das sombras, Camboriú é babel que mesmo cheia de espetos, acaricía.

Pertinho dali, o Itajaí escorrega sotaques molhados do Vale Europeu. De Pomerode a Blumenau, com Rio dos Cedros, Timbó… Ein bier bitte! Prost!

Por ainda não ter conhecido a Fronteira, vou ficando por ali na Serra Gaúcha. Pensa num sistema completo de encantamento. Tudo ali é uma grande estrutura pronta para transformar turistas em fãns. . E conseguem isso com boas doses de trabalho orientado a resultados. Montanhas são grandes temas em si mesmas. Mas quando nesse cenário você cria atrações e coloca gente motivada a viver do turismo, servindo os visitantes, você têm um resultado maior do que a soma das partes. Pra ficar ainda melhor, falta a diversidade brasileira ser representada nos restaurantes, lojas, serviços e mesmo entre os visitantes.

Na Serra Gaúcha você irá percorrer estradas panorâmicas, acessar um incrivel trem de mais de 80 anos, visitar lugares (museus, adegas…) que contam histórias e sentir o sabor dessas terras incorporado em seus excelentes espumantes. Vinhos de qualidade incrível servidos graciosamente nas paradas da ferrovia. Um prodígio!

Sobre esses vinhos, você os encontra a excelentes preços (menos de R$ 20 em Fev/2021) nos supermercados. São apresentados como “Espumante Natural”. Hoje os prefiro Demi-Sec mas antes os desfrutava Brut. Os vários produtores, grandes e pequenos, oferecem grandes espumantes que são de qualidade tal que rivalizam com os de outras procedêcias (estou falando de chilenos, argentinos, italianos e franceses). E lembre-se que você está no Rio Grande do Sul e visitar um CTG vai te dar um gostinho do que é ser gaúcho: música, churrasco e chimarrão. Aliás, ser gaúcho não é uma questão de geografia mas sim de tradição. Coisas da serra, coisas da terra e da sua gente.

Visite seu interior. Leia mais!

Se por enquanto você vai preferir ficar em casa (eu também), pode ao menos sentir o sabor das bebidas e comidas feitos por essa querida gente brasileira.

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Alcides

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